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O rumo certo Uma audição de "Chaos and creation in the backyard", de Paul McCartney, por Guilherme Lentz publicado em 18 de agosto de 2005
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Em compensação, a faixa seguinte, "Too much rain" é um desafio ao coração de qualquer apreciador de boa música. O arranjo com muito violão e uma percursão que cresce levemente acomodam uma melodia linda e cheia de tensões que se resolvem lindamente na última nota do refrão, em um belo falsete. A letra, otimista sem ser piegas, é um dos melhores momentos de Paul nessa área. Bem composta, bem arranjada, magnificamente interpretada, "Too much rain" é uma verdadeira catarse musical, que certamente vai impressionar os fãs por muito tempo. "A certain sadness" vem depois, talvez para que o ouvinte possa se recompor. É um canção diferente, com um tom latino que Paul já explorou em outros momentos. "Riding to vanity fair" aparece em seguida, como mais uma tentativa de Paul de fugir do convencional, buscando uma melodia incomum e um arranjo diferente também. "Follow me", a faixa seguinte, já era conhecida do público, pois Paul a apresentara no festival de Glastonburry. Há muito pouca diferença em relação à versão ao vivo. Com essas três faixas, prepara-se ouvinte para a impressionante seqüência de obras-primas que fecha o álbum. "Promise to you" é uma canção à moda antiga, em que Paul repete vários truques com os quais se dá muito bem, criando mais um momento de arrebatamento no álbum. A faixa se inicia com uma linha mais lenta, que, ao final, é repetida com um andamento mais feroz, recurso muito emocionante que Paul já usou antes, como em "Move over busker". No meio do caminho, há harmonias avassaladoras que remetem a "Because" e "Daytime nightime suffering", em um estilo que ocasionalmente lembra o Queen dos melhores trabalhos. Certamente um ponto alto, a ser lembrado. Não satisfeito, Paul emenda com "This never happen before", uma linda balada que, se é muito semelhante a "Same love" para que o ouvinte fique confortável, é muito superior a sua mãe, pois é menos açucarada e recebe uma produção mais comedida, o que rompe com um dos mais injustos estereótipos de Paul: o do baladeiro meloso. "Anyway", a seguinte, é a melhor balada que Paul compôs em muitos anos, mesmo perdendo um pouco no quesito originalidade por ser um pouco semelhante a "Only love remains". Ela se beneficia de todas as virtudes de "This never happen before", mas com uma melodia ainda melhor. A canção é agraciada com uma orquestração muito bonita, que pode não ter a riqueza de um arranjo de George Martin, mas ainda oferece grande contribuição. Fechando os quase cinqüenta minutos de ótima música, "I only got two hands", instrumental-surpresa que não deixa dúvidas, como se houvesse, sobre a versatilidade de Paul. Desde o Álbum Branco, uma das idéias que mais fascinam Paul e mais se tornaram recorrentes em sua obra é a de uma volta aos procedimentos básicos do seu início de carreira. Isso aconteceu nas sessões para o "Get back", no primeiro disco solo, no início do Wings, no "Choba BCCP", no "Unplugged", "Run devil run" e uma infinidade de momentos isolados. Há quem defenda a idéia de que, quando se envolve sozinho nesse tipo de projeto, Paul cria grandes trabalhos; quando o faz com uma banda, o resultado não é tão bom. Cita-se, por exemplo, o álbum "Flaming pie" como exemplo do primeiro caso e "Choba BCCP" e "Off the ground" como exemplo do segundo. Se esse comentário faz sentido, "Chaos and creation", em que Paul tocou quase todos os instrumentos, certamente é bom exemplo do primeiro caso. É um trabalho coeso e inspirado, em que mesmo os momentos menos brilhantes surgem adequadamente, como uma espécie de contraponto necessário para que as canções mais geniais brilhem com mais intenstidade. Em "8 arms to hold you", Chip Madinger diz que gostaria que Paul tivesse pelo menos mais um grande álbum dentro de si. É difícil julgar "Chaos and creation in the backyard" em relação a "Sgt. Peppers", "Band on The Run" ou "Abbey Road". Esses trabalhos carregam décadas de história; o julgamento deles está marcado por essa característica, e com isso um trabalho recente nunca poderá competir, principalmente no mercado do século XXI. Mas "Chaos" é sem dúvida um álbum consistente e, se fosse possível ignorar a história, que enriquece a arte, ele poderia figurar dignamente ao lado de muito do que Paul já produziu de melhor. Como não é, restam os palpites e as impressões. E o palpite aqui é de que o novo CD não chegará ao topo das paradas de sucesso, mas, no coração e na discoteca de quem admira um artista único, ainda no auge após mais de quarenta anos de carreira, certamente ocupará um lugar muito especial.
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"Há uma linha clara entre criação e confusão / Já era de hora de tomar o caminho certo", canta o mais ativo dos Beatles em "Fine line", primeiro single "Chaos and creation in the backyard". Nesse seu vigésimo álbum de estúdio, Paul McCartney acerta a direção ao reaproveitar procedimentos que lhe garantiram bons frutos no passado, sem que isso signifique a simples repetição de receitas. Em muitos aspectos, trata-se mesmo de um grito de independência, no sentido de que algumas opções não comerciais foram claramente feitas em prol da qualidade. A presença de pelo menos um single natural sempre trouxe uma certa segurança a Paul, ajudando-o a se sentir mais seguro para produzir um trabalho melhor. "Flowers in the dirt" teve "My brave face"; "Flaming pie" teve as impressionantes "Young boy", "The world tonight" e "Beautiful night"; "McCartney" tinha "Maybe I’m amazed", que não foi single, mas deveria ter sido; até o polêmico "McCartney II" se saiu bem com "Coming up". Por outro lado, o incômodo por "Driving rain" não ter um single tão óbvio prejudicou muito o trabalho, quando a alienígena "Freedom", numa tentativa de se criar um sucesso, foi forçadamente incluída em um CD pronto. A faixa, todos se lembram, não atingiu o sucesso esperado nos EUA e não foi muito bem recebida no resto do mundo, o que criou uma situação embaraçosa. Outro exemplo é a ausência de "Mull of Kintyre" em "London town", trabalho que certamente não está entre os melhores do Wings, freqüentemente citada por Paul como um erro estratégico. Dessa vez, porém, o álbum traz de saída "Fine Line", escolha óbvia para o single. Apesar de não se tratar de uma canção descaradamente comercial, ela traz todos os elementos para ser bem aceita pelo público em geral: é bem construída e positiva. A sonoridade lembra muito à de "Flaming pie", inclusive com produção semelhante à de Jeff Lynne, porém com um andamento mais acelerado. Musicalmente a faixa é bem elaborada, pois alterna coerentemente tonalidades, criando novas texturas com recursos simples, como as notas em stacato na segunda estrofe. Na letra, Paul tenta recriar sua clássica visão da parceira Lennon & McCartney, alternando uma visão mais ácida (There is a fine line between recklessness and sorrow / It’s about time you understand which road to take) com uma postura mais positiva (C’mon, brother, all is forgiven). "How kind of you", a faixa seguinte, traz Paul em ótima forma. Ele canta maravilhosamente, mostrando uma letra digna o bastante para tornar injusta qualquer acusação de que ele é mau letrista, e saindo um pouco de sua usual característica de colocar uma nota em cada sílaba. Musicalmente, a faixa é diferente de tudo o que Paul já compôs. Sem um refrão óbvio, "How kind of you" traz uma alternância de climas, que poderia ser mal comparada a "Hard to be true", do último disco de Ringo, mas com um sotaque muito menos comercial. Trata-se de uma canção pouco usual, efeito que Paul já tentara anteriormente, como em "She’s given up talking", mas sem o mesmo sucesso de agora. Muitos dos melhores trabalhos de Paul surgiram quando ele se aliou a um produtor profissional. Isso aconteceu com "Tug of war", "Flowers in the dirt", "Flaming pie", e agora o escolhido foi Nigel Godrich. A tentativa de criar um som mais adequado ao ouvido do público jovem pode ser questionada, mas é fato que Paul se beneficia da contribuição. "Jenny Wren", por exemplo, foi apresentada como "a filha de Blackbird", mas é muito mais do que isso. Trata-se de uma linda balada acústica com um arrepiante solo do que parece ser saxofone tratado de forma a se aproximar de um instrumento de corda. O toque do novo produtor se percebe muito aqui nos vocais, que é o melhor exemplo de um estilo adotado em todo o álbum. Há muito pouco eco adicionado à voz, que é mixada com muito destaque. Em "Jenny Wren", Paul parece ter cantado quase sussurando, bem próximo ao microfone, e esse tipo de mixagem valoriza essa abordagem. O resultado é um vocal de grande delicadeza, e fica a impressão de que Paul canta no ouvido do fã. Alie-se isso à atmosfera da canção, ao solo emocionante, à letra construída ao redor de uma personagem, uma tradição na poética do Paul, e o resultado é uma faixa ímpar que, tivesse sido lançada nos anos 60 ou 70, sem a estranheza do mercado atual, com certeza estaria entre os mais queridos clássicos de McCartney. Na seqüência surge "At the mercy", uma faixa menor dentro de álbum, novamente buscando uma estética mais incomum. Se não deslumbra, também não desaponta. Talvez não se trate de um clássico, mas ainda é uma contribuição digna ao catálogo. "Friends to go", a faixa seguinte, foi alvo de polêmica na imprensa, pois Paul teria dito que, para compô-la, recebeu a ajuda fantasmagórica de George. Na realidade, há muito pouco de George na canção, a não ser a possível interpretação de que a letra retrata alguém, do lado de lá, esperando os amigos: "I’ve been waiting on the other side". Musicalmente, a canção tem uma base acústica levemente folk, levemente country. "English tea", a faixa seguinte, é atraente à primeira audição, pois tem um acompanhamento de cordas que muito lembra "For no one" e o solo de um instrumento de sopro que remete a "Penny Lane", além de vários outros elementos que automaticamente levam o ouvinte a vários pontos da trajetória dos Beatles. À medida que se ouve a canção mais vezes, porém, fica claro que é exatamente esse o seu defeito. O refrão é muito semelhante ao de "Crypt", do Liverpool Oratorio, e o título guarda uma incômoda semelhança com "English garden", recente canção de Ringo. Novamente, "English tea" não causa desgosto nem prejudica a grandeza do trabalho, mas sem dúvida é uma faixa menor dentro do álbum.
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